Quem gosta de desenhar sabe o quanto pode ser divertido explorar visualmente os extremos de uma expressão, seja ela de dor, alegria, tristeza, espanto ou o que quer que seja. É uma maneira de criar uma caricatura de um sentimento ou reação, deformando o aspecto original de um ser até o limite do reconhecimento. No campo da animação, a súbita mudança de um personagem para uma expressão nos seus extremos é uma gag que sempre funciona. Nos anos 1930, 1940 e 1950 Tex Avery foi o grande mestre das expressões extremas, fazendo disso uma de suas marcas registradas, principalmente nos cartoons do cachorro Droopy.
Abaixo, “Cheap Joke”, de Ian Miller, um exemplo recente da exploração gráfica de uma expressão até o seu limite. Com um estilo de animação singular, assumidamente grotesco, que provoca simultaneamente riso e repulsa, Miller é também o criador/animador do ótimo “True Confessions”, apresentado no Ottawa International Animation Festival de 2009.
Who likes to draw knows how much fun can be to visually explore the extremes of an expression, be it pain, joy, sadness, surprise or whatever. It is a way to create a caricature of a feeling or reaction, deforming the original appearance of a being to the edge of recognition. In the field of animation, the sudden change from one character to an extreme in their expression is a gag that always works. In the 1930s, 1940s and 1950s Tex Avery was the great master of extreme expressions, making it one of its trademarks, especially in the Droopy cartoons.
Above, "Cheap Joke" by Ian Miller, a recent example of the graphic exploration of an expression to its limit. With a unique style of animation, admittedly grotesque, which causes both laughter and disgust, Miller is also the creator / animator of the great "True Confessions", presented at the Ottawa International Animation Festival in 2009.
O húngaro Marcell Jankovics (nascido em 1941) integrou o grupo de animadores do lendário Pannónia Filmstúdió, um órgão de cinema estatal (até 1986) da Hungria que produziu, entre os anos 1960 e 1980, impressionantes filmes de animação que conquistaram vários prêmios internacionais (como o Oscar e a Palma de Ouro em Cannes) e influenciaram várias gerações de animadores no mundo todo. Nos anos 1970, Jankovics se firmou como um dos mais bem sucedidos animadores do Pannónia. Os curtas "Mélyvíz" (1970) e "Sisyphus" (1973) estão entre os seus trabalhos mais conhecidos e notáveis. Ambos são elaborados estudos sobre a expressão corporal, além de serem exercícios sobre o potencial expressivo do traço do desenho, empregado para traduzir visualmente - e não somente representar de forma realista - contrações físicas. Em "Mélyviz" (águas profundas, em português) um homem se debatendo desesperadamente para não perder a vida afogando-se, é animado numa constante mutação do seu design, em deformações que vão expressando os diferentes estágios do seu desespero, diante de um inevitável destino.
Como o próprio nome indicia, "Sisyphus" baseia-se na lenda de Sísifo que, segundo a mitologia grega, é um humano que foi condenado pelos deuses a realizar um trabalho monótono e cansativo - o de rolar uma grande pedra para o alto de uma montanha, tarefa esta que dura toda a eternidade, já que, ao chegar ao cume, a pedra sempre rola de volta, retornando ao ponto de partida. Janckovics alterna a espessura dos traços, entre grossos e finos, empregando-os como uma analogia ao processo de inspiração e expiração do personagem. Na alternância entre esforço e (quase) repouso, Sísifo e sua pedra, em alguns momentos, tornam-se uma composição abstrata, reduzida a linhas de força.
“Chick” é um curta de animação com um design interessantíssimo. Apesar de já ser bastante popular na web, tendo sido divulgado em vários sites e blogs, acho significativo apresentá-lo também no GRAPHICINEMA, aproveitando a deixa dele estar sendo exibido neste mês em São Paulo, como parte da mostra de animação do FILE (Festival Internacional da Linguagem Eletrônica), que vai até o dia 21 de agosto (hotsite do FILE aqui).
"Chick" foi dirigido e concebido visualmente pelo polonês Michal Socha, que com este trabalho faz jus à tradição visionária do seu país no campo das artes visuais e audiovisuais. A Polônia sempre foi um celeiro de grandes artistas, com trabalhos ousados e de grande imaginação, em cartazes, filmes e animação. É a terra de Henryk Tomaszewski, Wiktor Gòrka, Wieslaw Walkuski, Roman Cieslewicz, Walerian Borowczyk e Jan Lenica, entre muitos outros.
É possível perceber no curta de Socha (que também é designer gráfico) uma tendência marcante do design e da animação polonesa, que é a de transformar sentimentos e vivências cotidianas em experiências assustadoramente surreais. Outra característica é o emprego do design como o principal elemento da comunicação. Nas peças polonesas, o design não é empregado apenas para dar suporte a um assunto. O assunto é que se apresenta apenas como uma desculpa para o design. Em outras palavras, o design é o assunto. Isto é o que faz com que os cartazes e as animações polonesas sejam tão atraentes ao olhar.
Cartazes de Jan Lenica e Roman Cieslewicz (topo); Wieslaw Walkuski e Kaja Renkas.
"One past two" é um filme de animação de 05 minutos, roteirizado, animado e dirigido por uma jovem holandesa de 22 anos, Aimée de Jongh, que foi apresentado neste mês como trabalho de graduação na Escola de Mídia e Design da Willem de Kooning Academy, de Roterdã. Confesso nunca ter visto um filme de estudante tão tocante e tão bem estruturado. Na verdade, Aimée - que inclusive cuidou sozinha de toda a concepção visual do filme (storyboard, design de personagens e cenários) - trabalha com a destreza de uma profissional. Certamente sua experiência de alguns anos no campo dos quadrinhos e da ilustração fez toda a diferença. Entrei em contato com Aimée logo após descobrir o seu filme na web, para pedir sua autorização para vincular no GRAPHICINEMA uma versão do seu filme com legendas em português. Aymée gentilmente atendeu o pedido e inclusive me enviou algumas imagens da produção de "One past two", que utilizo, junto com outras extraídas do seu blog, para ilustrar os comentários que são apresentados após o vídeo, nesta postagem. Para que o impacto emocional do filme não seja dimuído, recomendo que o vídeo seja assistido primeiro, antes da leitura do texto que segue.
A versão original do filme, sem as legendas em português, pode ser vista aqui.
O final de "One past two" é surpreendente. O que inicialmente se apresenta com uma história de "rapaz encontra moça" acaba por se revelar como um filme sobre o encontro das almas de dois jovens estudantes, ambos feridos num absurdo atentado, num mundo entre a vida e a morte, aguardando Caronte para levá-los definitivamente para o mundo dos mortos. Na mitologia grega, Caronte é aquele que recebe as almas dos que acabaram de morrer e as transporta, num barco, para o reino de Hades, onde ficam os mortos. Adaptado para o contexto dos estudantes, o Caronte de "One past two" é o motorista do ônibus. Com os recentes massacres na Noruega e na escola de Realengo, Rio de Janeiro, em abril deste ano, a revelação de "One past two" se apresenta ainda mais triste e arrepiante.
No entanto, não é propriamente no final surpreendente que reside a força emocional de "One past two" e sim na forma como a diretora Aimée constrói os personagens dos dois estudantes no início do filme. Aliás, o final só ganha força e impacto porque os personagens são críveis e envolventes. O destino trágico de Tim e Eve só nos toca porque passamos a gostar deles e nos identificamos com eles. E o que chama a atenção é que Aimée consegue este resultado em apenas quatro minutos, utilizando "desenhos animados". No entanto, Aimée não faz os seus desenhos simplesmente se moverem, mas lhes dá alma (latim: anima) e neste sentido faz jus ao real significado do verbo "animar". Em outras palavras, esta jovem artista holandesa cria, com seus desenhos em movimento, a "ilusão da vida"(1) - feito notável para quem ainda está no início da carreira, na área da animação.
Aimée tira proveito de todas as nuances das interpretações vocais (ótimas, por sinal) e as ilustra inserindo expressões e trejeitos que dão veracidade e simpatia aos personagens. O design dos personagens também contribui para reforçar este aspecto. Eve e Tim foram projetados para representarem jovens comuns, com os quais todos possam se identificar.
É interessante ver o processo de concepção dos personagens e perceber como foi buscada uma aparência mais casual, que lhes desse simplicidade e informalidade. Há também nos personagens um curioso paradoxo: apesar da animação cuidadosa torná-los críveis, nós não deixamos de vê-los enquanto "desenhos", graças ao traço forte, não tão preciso, com linhas e contornos acentuados. Em "One past two" é possível notar a presença da mão do desenhista. Este aspecto inclusive dá ao desenho mais espontaneidade, além de um caráter mais humano, mais tátil -mais expressivo, portanto.
Estudo do plano no qual o background se revela na sua totalidade
Esta expressividade também está presente nos backgrounds. O fundo cinza, pintado à mão, está sempre em movimento, criando uma sensação misteriosa e, de certa forma, sinistra - uma espécie de dica de que há algo estranho por trás (também literalmente) do bate-papo descompromissado dos dois jovens estudantes. O background estabelece um contraste em dois níveis: ele tanto se opõe à leveza do diálogo entre os jovens, como também cria o contraste visual necessário para que o espectador concentre sua percepção nos personagens. O background só se impõe de forma mais assertiva, revelando-se mais ao espectador, no momento em que Eve morre (isto é, quando passa a sentir frio). Uma pontuação visual muito significativa, que inclusive fornece o gancho para o segundo momento do filme, que marca a aproximação de Tim e Eve. Numa triste (e poética) constatação, descobrimos depois que Tim gentilmente acalentou Eve no momento de sua morte.
Apesar da curta duração do filme, Aimée emprega uma grande quantidade de planos. Aqui fica evidente a sua experiência como desenhista de quadrinhos. Os enquadramentos mudam o tempo todo, pontuando os diálogos, chamando a atenção para pequenos detalhes (o pé de Tim chutando a neve, a mão de Eve segurando o casaco, a neve que escorre da placa do ponto de ônibus, o pé de Eve no degrau do ônibus), aumentando o envolvimento do espectador com as cenas e com os personagens. Considerando que o filme se apóia mais em diálogos do que em ações, a variação dos planos também evita que a monotonia se estabeleça.
A influência dos quadrinhos também se faz notar na forma como Aimée emprega expressivamente os limites do enquadramento - ou o requadro, no jargão das histórias em quadrinhos. Enquanto que no mundo dos mortos os limites são difusos, a realidade tem limites bem definidos.
Histórias em quadrinhos de Aimée de Jongh
Por fim, cabe falar da trilha musical e do som. Aimée postou na web o vídeo do "trabalho em andamento", com "One past two" ainda não terminado na animação e sem música, efeitos sonoros e foley (som dos barulhos das cenas, como os passos de Tim correndo, a porta do ônibus se abrindo, etc.) . Em contraponto ao trabalho final, é curioso ver como uma trilha musical contribui para pontuar e estruturar as emoções e como os trabalhos de som reforçam a espacialidade num filme. O tema musical de "One past two" é delicado, terno, mas ao mesmo tempo melancólico, oferecendo um outro contraste ao leve diálogo dos jovens. Assim como o background, ele prepara o espectador para a revelação final, impedindo que esta se apresente de forma brusca, forçada.
Aimée de Jongh
"One past two" é um destes pequenos filmes que se revelam grandes. Pequenos no sentido de que não são estravagantes, chamativos, e partem de idéias singelas. Mas revelam-se grandes porque são feitos com inspiração e sinceridade, transformando o assunto de que trata em poesia.
"One past two" não revoluciona nem amplia os limites da arte da animação - e nem aparenta ter esta intenção. Mas é exemplar no sentido que cumpre uma das funções da arte, que é a de nos humanizar, nos chamar a atenção para o que somos e o que podemos ser, tocando o nosso ponto mais sensível - o coração.
Parabéns Aimée, vamos ficar de olho nos seus próximos trabalhos.
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Em tempo: "One past two" foi produzido utilizando os programas TVPaint (na animação), Adobe Photoshop (nos backgrounds) e Adobe After Effects (na pós-produção). O céu foi pintado à mão.
(1) A expressão "ilusão da vida" foi empregada aqui fazendo (inlcusive) referência ao célebre livro de Frank Thomas e Ollie Johnston, lendários animadores dos Estúdios Disney - "The Illusion of life - Disney animation" - que trata justamente da habilidade dos artistas do estúdio em criar filmes com personagens críveis, capazes de fazer rir e chorar.
Que a cor é muito importante na animação, todo mundo sabe. Mas o que torna o curta
"Jazzed", de Anton Setola, uma obra digna de nota, é que a cor é nela um elemento dominante. Com um visual que lembra os estudos de cores que os designers fazem na fase de pré-produção para as animações tradicionais, "Jazzed" é interessante justamente por não aprisionar a cor em uma representação realista, o que a colocaria num plano subliminar. Sugerindo espaços, atmosferas e criando personalidades e sensações, em "Jazzed", a cor é o protagonista.
Este curta foi concluído em 2008 e só agora, após ter sido apresentado e premiado em vários festivais (em 2009 foi exibido na 17ª edição do Animamundi), seu autor o disponibilizou para ser visto na web.